Em um mundo onde a polarização se torna cada vez mais evidente, uma reflexão profunda acerca do papel da razão em meio à força é mais necessária do que nunca. Durante minha participação no 24º Congresso Internacional de Direito Constitucional, em João Pessoa, promovido pela Escola Brasileira de Estudos Constitucionais (EBEC), tive a oportunidade de ouvir grandes pensadores do Direito brasileiro, como o professor José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça. Sua palestra, rica em conteúdo e reflexões, trouxe à tona um episódio histórico que devemos resgatar e analisar: as palavras do filósofo e reitor Miguel de Unamuno durante a Guerra Civil Espanhola.
Em 12 de outubro de 1936, a Universidade de Salamanca tornou-se palco de uma cerimônia marcada por uma atmosfera de violência e polarização. A Espanha vivia um período turbulento, e o ambiente estava repleto de figuras militares e líderes nacionalistas que defendiam a eliminação de seus opositores. Durante esta cerimônia, Unamuno, um intelectual respeitado, se viu diante de discursos que exaltavam a guerra e o culto à morte. Frases como “¡Viva la Muerte!”, associadas à Legião Espanhola, ecoavam pelo recinto, refletindo a ideologia de um regime que se alimentava da destruição do outro.
Diante desse cenário, Unamuno se manifestou de forma corajosa, destacando que um verdadeiro templo da inteligência não poderia ser profanado pela apologia à violência. Sua célebre observação — “Vencerão, mas não convencerão” — é um alerta poderoso sobre os limites da força na construção de uma sociedade. Para ele, embora a força pudesse, temporariamente, suprimir vozes discordantes, ela jamais seria capaz de conquistar corações e mentes. Essa mensagem ressoa profundamente em um tempo onde a democracia parece estar em risco, e o silenciamento do outro se torna uma tônica.
O filósofo sabia que a obediência imposta pela força é efêmera e que uma verdadeira mudança de consciência exige diálogo, compreensão e persuasão. Uma sociedade que celebra o silenciamento dos adversários pode vencer batalhas momentâneas, mas, a longo prazo, isso resulta em uma perda de legitimidade e na desintegração do tecido social. O que Unamuno defendia era uma democracia vibrante, onde vozes diferentes pudessem coexistir e contribuir para uma verdade mais ampla.
A história de Unamuno não termina em sua defesa corajosa da liberdade intelectual. Após seu discurso, ele foi escoltado da Universidade, temendo por sua vida, e não demorou a ser destituído do cargo de reitor. Poucas semanas depois, faleceu, mas seu legado continua vivo como um símbolo da luta pela liberdade de expressão e pelo respeito às ideias divergentes. O episódio se tornou um marco a ser lembrado, uma referência que nos instiga a pensar sobre como tratamos nossos opositores e sobre a importância do debate intelectual na construção de uma sociedade mais justa e democrática.
Em tempos de divisão e hostilidade, é essencial que busquemos caminhos que fomentem o diálogo e a escuta ativa. A democracia é muito mais do que a mera existência de um sistema eleitoral. Ela exige que todos os cidadãos, independentemente de suas convicções, tenham a oportunidade de se expressar e serem ouvidos. O fortalecimento da democracia depende de nossa capacidade de debater civilizadamente, de respeitar a diversidade de opiniões e, acima de tudo, de entender que a razão sempre será o melhor caminho para conquistar consciências.
A reflexão que Miguel de Unamuno nos oferece é, portanto, mais do que uma lição do passado; é um chamado à ação no presente. Em um mundo marcado por polarizações, é nosso dever lembrar que a força pode calar a razão temporariamente, mas nunca poderá substituir a necessidade humana de diálogo e compreensão.
Posicionamento do Gospel News Brasil
O Gospel News Brasil reafirma seu compromisso com a liberdade de expressão e o debate saudável e respeitoso. Em tempos em que a polarização parece dominar o cenário, acreditamos que é fundamental promover a escuta ativa e o diálogo entre diferentes perspectivas. A mensagem de Miguel de Unamuno nos inspira a valorizar a razão e a compreensão mútua, pilares essenciais para uma sociedade verdadeiramente democrática. É nosso dever, como cidadãos e como cristãos, lutar pela convivência pacífica e pelo respeito às opiniões divergentes, construindo um futuro onde a convicção seja fruto do diálogo e não da imposição.
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FONTE PRINCIPAL: pleno.news

